30 setembro 2014

AS VALQUÍRIAS (a pensar no Sá)


na minha hora 
     mais amarga e tenebrosa
                    estou sozinho

nos minutos infindáveis
       de cada hora que passa
sequiosamente 
         bebo a minha própria taça
                               de cicuta

quando a noite se adensa e eterniza
  quando as agonias
           lascas afiadas
  laceram a carne da alma
         em sangue de espírito vivo

  agora que a sarça ardente
         se torna rubra e incandescente
                  e lambe sofregamente
    as frágeis paredes
que me protegem do mundo e de mim
    ameaça tornar-se finalmente visível
             a eterna combustão
                         que me consome

ardo tranquilamente
   em silêncio
       na noite

porque nesta hora
  não resta ninguém
capaz de presenciar as minhas causas
                   e razões
    (inclusive a falta delas)
capaz de testemunhar a minha loucura
     (ou será lucidez por fim? até que enfim...!)
      de me amparar ou empurrar para o abismo
            (ambos actos de misericórdia
                  e de compaixão)

quedo-me inânime
          por terra

a pensar no que poderia ter sido
            e não no que pode vir a ser
quase...
      quase...

as minhas asas não possuem força
    o vento deixou de as embalar com o seu sopro
          está tudo tão manso lá fora
quietude geral que se demora
           nessa outra 
                escuridão fora de mim

é agora
   está na hora
           quase...
        quase...

FIM

(quase...)
(ah, as valquírias, as valquírias...
Kára chamou também por ti...?)



Luis Beirão
Imagem: The Ryde of the Valkyrs (1909), quadro de John Charles Dollman
Aconselha-se leitura a ouvir ISTO

2 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Já tinha saudades de um poema escrito por ti.

Luis Beirão disse...

Este foi a pensar no Sá... e noutras coisas...


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