14 janeiro 2017

TERRA 21



Foi hoje um Domingo bonito, Cacilda!
A sanfona correu o lugar de lés a lés.
- Quem deu pelas histórias dos velhos?
Ninguém.
- Quem ouviu a fome do gado, preso no curral? 
Ninguém.
-Quem espantou as galinhas, debicando nos cachos? 
Ninguém.
Na venda, houve surra, abriram cabeças.
E farnéis na charneca
e dança no sobrado da tua avó.
O brasileiro trouxe aquela caixa que tem música
e modas di lá.
Tudo foi bonito, Cacilda!
Vem banhar-te na alegria
das penas adormecidas.
Deixa o amanhã. 




Fernando Namora


07 janeiro 2017

MARKETING



Aqui    a meu lado    o bom cidadão
escolheu Sagres
que é tudo    tudo cerveja
a pausa que refresca
a longa pausa de um longo cigarro King Size.
                                   atenção ao marketing.
Eu não gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para não contrariar os fabricantes de cerveja.
                                   atenção ao marketing.
Ninguém contraria os fabricantes de cerveja
ninguém contraria os fabricantes do Opel e da Super Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suíça
nem o homem de capa negra que virou as costas ao Palmolive.
Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a ver as processões passar    mesmo sem anjos    mesmo sem anjos
que são agora selvagens e voam numa Harley.
Deito-me e obedeço aos fabricantes do Clarim
que é uma alta onda ou uma onda alta
sem esquecer as fitas do John Waine e a chama viva do Butagás
e se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa fatia de pão.
                                   atenção ao marketing.
Vitonizo-me    desodorizo-me    atravesso as ruas nas passagens dos peões
louvo quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e dos blousons noirs    que não usam Lux
e não compram um frigorífico a prestações
e com o meu escudo invisível
protejo-me dos vírus subversivos
sou um bom cidadão    sou um bom cidadão
obedeço ao marketing    à General Motors e ao Pentágono.
Dantes    tinha problemas    era o odor corporal
e eu não o sabia até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete das estrelas 
e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e o talco Cadum    que ama demoradamente roucamente tepidamente 
os corpos que merecem ser amados...
Obedeço ao marketing    não contrario.
Ninguém contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que é o da cor do sol
ninguém pisa os riscos brancos do tráfego
nem chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro    concorro    e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de Scotchgard
ninguém sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no Dardo    que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música no Coração.
Fazendo Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não contrario    obedeço    obedeço    e meto os meninos na cama
quando me dizem vamos dormir.
                                   atenção ao marketing.
Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário    que é detergente
e eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e até já consigo adormecer com hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeinado
e no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para me banhar na Torralta
cidadão perfeito perfeitamente bronzeado com Ambre Solaire.
Também vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com um pó azul de que não me lembra o nome
não me lembra mas a culpa já não é minha
porque na mesma noite
massajado com Aqua Velva
fiz a barba com Gillette, e Schick e Nacet
e fui não sei aonde sempre com a mesma lâmina
e oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes de eu descer no aeroporto
onde me esperava um agente do marketing.
Os produtores viram-me à descida do avião
primeiro julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou o Onassis    mas era eu
e gostaram da minha barba bem feita.
(Da barba bem feita
ou do casaco Dralon que não se amarrotara
durante a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso que já não me lembra    mas a culpa não é minha
pois na mesma noite
fui o homem de não sei quê que marca o rumo
por vestir regras ou camisas ou calças que não enrugam
e fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e fiz-me mecânico de automóveis
só para que o cavaleiro da armadura branca
me tocasse com a sua lança mágica
e me pusesse branco branco branco
três vezes branco como as páginas do Reader’s
de cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos locutores da televisão    pela oratória dos políticos
e passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que talvez fosse – ou não? – uma enceradora Philips.
Tudo coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que eu devo ao marketing
e me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas palavras de pressão
de todo o bom cidadão.
E no intervalo bebi café puro    o do gostinho especial
Sical Sical que é um luxo verdadeiro
Por pouco dinheiro.
Vitonizadi    esterilizado    comprando e concorrendo
esqueci-me de amar    do amor    das árvores e do rio
esqueci-me de mim    tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me do rio e dos barcos
e da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e esqueci-me de sonhar que era marinheiro.
Concorra    concorra    foi isso que não reparei
que uma rapariga cortou as veias
talvez fosse com uma Diplomatic
que tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No programa só havia bombeiros
nem uma rapariga a cortar as veias (não era a Caprília)
nem o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se mágoa sentia era a de ter esquecido
dar murros no espião da Missão Impossível
                                   (atenção ao marketing)
e já não saí de casa para ver o rio
só pelo gosto de me aquecer com um Ignis.
E na mesma noite    noite boa    noite branca
fumei Estoril    Valetes    Kayakes e bebi Compal
depois da Salus e da Schweppes
fumei quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros e mais quilómetros – há um Ford no meu futuro – 
mais facturas mais fomes mais prazer
e agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me soube melhor.
Foram todos    foram todos de certeza
pois se me dizem que preciso de Omo
do Ajax    do Estoril    do Dralon
do esquentador e das alcatifas sem nódoas
não me preocupo    não te preocupes
Meraklon não preocupa ninguém
mando para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não me preocupo    não me preocupo
digo pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.
E na mesma noite
vi umas bombas que caíam muito ao longe
numa lonjura mais longe que a Lua
onde as pessoas podiam estar quietas a fumar Marialvas
e a lavarem-se com Rino    que lava lava lava
lava três vezes mais    lava ou mata que se farta
e me ajuda a ser bom cidadão.
                                   atenção ao marketing.
Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inauguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado no conforto de um Lusospuma
vi os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem longe    nas ruas de Estocolmo
mesmo a pedirem uns safanões
dos homens que acariciam crianças
e têm todas as verdades na mão
só para que eu seja um bom cidadão.
É isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso e gosto de uma data de coisas
e só agora o sei.
Menos da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.
                                   E tudo graças ao marketing.



Fernando Namora


10 dezembro 2016

PARA VÓS O MEU CANTO...


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais um leito dum rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores, 
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios para cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
a crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia do Juízo...
Que o Dia do Juízo
não é no céu... é na Terra!



Sidónio Muralha


Nota: Nasceu em 28 de Julho de 1920, na Madragoa (Lisboa). Em 1941 (21 anos), incentivado pelo matemático Bento de Jesus Caraça publicou o seu primeiro livro de poesia: “Beco”. Integrou o movimento neo-realista com nomes como Joaquim Namorado, Fernando Namora ou Mário Dionísio. Fez parte do Novo Cancioneiro, que reunia autores contestatários do Estado Novo. Em 1943 exila-se no Congo belga, onde chegou a ser director geral da Unilever (estudara Ciências Económicas e Financeiras, mais tarde Administração na Universidade de Louvain, na Bélgica). Em 1944 casou por procuração (ela estava em Portugal) com Maria Fernanda d’Almeida, de quem teve quatro filhos. No Natal de 1949 (29 anos) volta a Portugal, publicando a 2ª edição de Beco - Passagem de Nível e no ano seguinte “Companheira dos Homens”. Ambas as edições de autor contaram com ilustrações de Júlio Pomar na capa. Em 1950, com desenhos do mesmo e músicas de Francine Benoit publica o livro de poemas para crianças “Bichos, Bichinhos e Bicharocos”. Em 1960 (40 anos) a família regressa à Europa e vive 2 anos em Bruxelas. Continua a trabalhar para a Unilever, e estagia e trabalha em Bafatá (Guiné Bissau), Ostende (Bélgica), Dakar (Senegal), Londres e Paris. No início dos anos 60 chega ao Brasil, onde ficaria até ao fim da vida. Estabelece-se com a família em São Paulo, onde é um dos fundadores da Editora Giroflé (publicações para crianças). O projecto não vinga, mas vai publicando livros para crianças (“A Televisão da Bicharada”, 1962, I Prêmio da Bienal do Livro de São Paulo) e para adultos. Nos anos 70 regressa a Portugal para publicitar a sua antologia de poesia “Poemas” (1971), e depois para celebrar o Portugal libertado pela revolução dos cravos. A esposa Maria Fernanda faleceu em 1978. Em 1979 (59 anos), recebeu o prémio de literatura infantil, o “Prémio Portugal 79 – Livro para Crianças”. Nesse ano, casa com a médica obstetra Helen Butler, com quem passou a viver em Curitiba, onde faleceu a 8 de Dezembro de 1982 (62 anos). Foi um dos precursores do neo-realismo e grande divulgador da literatura infantil. Em vida, publicou 21 livros para adultos e 15 livros para crianças, por editoras portuguesas e brasileiras. É considerado um dos melhores poetas para crianças em língua portuguesa.

26 novembro 2016

OS PASSOS DISTANTES (LOS PASOS LEJANOS)


O meu pai dorme. O seu semblante augusto
parece um coração aprazível;
está agora tão doce...
se há nele algo de amargo, serei eu.

Há solidão no lar; reza-se,
e não há notícias dos filhos hoje.
O meu pai desperta, ausculta
a fuga para o Egipto, o estancado adeus.
Está agora tão perto;
se há algo nele de distante, serei eu.

E a minha mãe passeia por aí nas hortas,
saboreando um sabor já sem sabor.
Está agora tão suave,
tão alada, tão saída, tão amor

Há solidão no lar, sem bulício,
sem notícias, sem verde, sem infância.
E se há algo quebrado nesta tarde,
e que baixa e que range,
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
Por eles vai o meu coração a pé.


Cesar Vallejo


Nota: Nascido em 1892 em Santiago de Chuco (norte do Peru) é considerado o maior poeta do seu país e o mais influente poeta hispano-americano a par de Pablo Neruda. Neto de mulheres indígenas e mestiço, a sua vida foi marcada pela pobreza, desamparo e perseguição. O pai tinha um emprego razoável, mas a família era numerosa. Com 18 anos ingressa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Trujillo, curso que não conclui por falta de dinheiro. Subsistiu como tutor do filho de um fazendeiro e como assistente na administração de uma fazenda de açúcar. Em 1915, torna-se professor, mas tem que mudar-se para Lima por problemas amorosos. Mais tarde director numa escola, conhece o poeta anarquista Manuel Prada e publica, "Los Heraldos Negros", bem acolhido pela crítica. Demitido em 1920 (28 anos), de visita à sua cidade, é preso por 3 meses, injustamente acusado de instigar uma confusão na qual um agente da autoridade foi baleado. Em 1922 publica “Trilce", escrito no cárcere, com uma tiragem de apenas 200 livros (cada um custou-lhe mais que o lucro total na venda). É novamente demitido do novo emprego de professor e decide, com 38 anos, mudar-se para Paris, onde irá conhecer artistas como Artaud, Cocteau ou Picasso. Consegue emprego numa gráfica três anos depois, tendo quase morrido de fome. Mais tarde obtém uma bolsa de estudos do governo espanhol, para terminar os estudos de Direito. Interessa-se pelo marxismo, e vai por 3 vezes à União Soviética. Passa a viver com Georgette Philipart até ser preso e expulso do país, para se exilar em Espanha em 1930. Em 1931 regressa, apenas com uma mala de roupa, e encontra o apartamento destruído pela polícia. Engaja-se mais tarde na causa republicana na Guerra Civil espanhola, escrevendo propaganda e dando aulas de doutrina política. Chocado com os horrores da guerra, em visita a Madrid, escreveu o livro militante "España, aparta de mí este caliz", que não foi publicado em vida, e o livro de poesia "Sermón de la barbarie". Casou-se com a companheira em 1934, mas a situação económica foi sempre má, pelo que quando morreu em Paris devido a uma febre misteriosa (4 anos depois, com apenas 46 anos), era muito pobre. Nunca mais voltou ao Peru.

Tradução de minha autoria, aqui fica o original em espanhol:


Mi padre duerme. Su semblante augusto
figura un apacible corazón;
está ahora tan dulce...;
si hay algo en él de amargo, seré yo.

Hay soledad en el hogar; se reza;
y no hay noticias de los hijos hoy.
Mi padre se despierta, ausculta
la huída a Egipto, el restañante adiós.
Está ahora tan cerca;
si hay algo en él de lejos, seré yo.

Y mi madre pasea allá en los huertos,
saboreando un sabor ya sin sabor.
Está ahora tan suave,
tan ala, tan salida, tan amor.

Hay soledad en el hogar sin bulla,
sin noticias, sin verde, sin niñez.
Y si hay algo quebrado en esta tarde,
y que baja y que cruje,
son dos viejos caminos blancos, curvos.
Por ellos va mi corazón a pie.



21 novembro 2016

CANÇÃO (SONG)


O peso do mundo
       é o amor.
Sob o fardo 
       da solidão,
sob o fardo 
       da insatisfação

       o peso,
o peso que carregamos
       é o amor.

Quem o pode negar?
      Em sonhos,
toca-nos 
      o corpo,
em pensamentos
      constrói
o milagre,
      na imaginação
angustia-se
      até nascer
humano

- sai para fora do coração
      ardendo com pureza -
pois o fardo da vida
      é o amor,
mas nós carregamos o peso
      fatigados
e assim precisamos de descansar
nos braços do amor
      finalmente,
precisamos de descansar nos braços 
      do amor.

Nenhum descanso
      sem amor,
nenhum sono
      sem sonhos
de amor -
      quer eu esteja louco ou com frio,
obcecado por anjos
      ou máquinas,
o último desejo
      é o amor
- não pode ser amargo,
      não pode negar,
não pode ser contido
      se negado:

o fardo é demasiado pesado

      - é preciso dar
para nada retornar
      como pensamentos
dados
      na solidão
em toda a excelência
      do seu excesso.

Os corpos quentes
      brilham juntos
na escuridão,
      a mão move-se
para o centro
      da carne,
a mão treme
      de felicidade
e a alma sobe 
      feliz até aos olhos -

sim, sim,
      era o que
eu queria,
      o que eu sempre quis,
o que eu sempre quis,
      regressar
ao corpo
      onde nasci.


Allen Ginsberg
(tradução da minha autoria, for english version click HERE)

Imagem: Estátua "O beijo" do escultor romeno Constatin Brancusi (1908)

Nota: Nascido em Newark, New Jersey a 3 Junho 1926, Ginsberg foi um poeta americano da geração beat, que serviu de inspiração para a personagem Alvah dos “Vagabundos da Verdade” de Jack Kerouac. Foi uma criança complicada assombrada pela paranóia da sua mãe. Na escola secundária, encanta-se com a obra Walt Whitman, embora acabe por cursar Direito na Univerdade de Columbia onde faz amizade com um grupo de jovens insubmissos (entre os quais Lucien Carr e Kerouac), interessados em drogas, sexo e literatura. Ginsberg acreditava que seguiam em direcção a uma grande visão poética, que ele e Kerouac chamavam New Vision. Experimentou anfetaminas e canábis e começou a frequentar bares gay, iniciando um relacionamento com Neal Cassady, que vistava em Denver e S. Francisco. Assumindo um estilo de vida bizarro, aos 29 anos, já tinha escrito muita poesia, mas quase nada publicado. Ganhou popularidade a partir de 55 com o seu poema “Uivo” (considerado por muitos, obsceno e pornográfico). Foi o livro de poesia mais vendido da história dos EUA, ultrapassando um milhão de exemplares, seguido por vários outros poemas importantes. Ginsberg viaja pelo mundo, descobre o budismo e apaixona-se por Peter Orlovsky (seu companheiro pelo resto de vida, embora a relação não fosse exclusiva). No início dos anos 1960, enquanto sua celebridade crescia, Ginsberg lança-se na cena hippie, ajuda Timothy Leary a divulgar o LSD e participa em muitos eventos (ex: o “Human Be-In”, S. Francisco, 1967). Foi também figura-chave nos protestos contra a guerra no Vietname, em 1968. Após conhecer o lama tibetano Trungpa Rinpoché, aceita-o como seu guru pessoal e com a poeta Anne Waldman, cria uma escola de poesia. Participando sempre em eventos multiculturais até à sua morte a 5 Abril 1997, entre seus maiores admiradores, estavam os múiscos Jim Morrison (The Doors), os The Clash e os The Cult por exemplo. Foi um dos expoentes do movimento beat, grupo de autores que trabalhavam com poesia, prosa e consciência cultural. A sua escrita oscilava entre o mantra e o sexo explícito, o sagrado e o profano, o espiritual e o material. Transitava entre dois mundos: o da marginalidade e o da cultura erudita. A utopia de Ginsberg era a de uma sociedade harmoniosa, onde coubessem os loucos e todos os contextos estranhos.

31 outubro 2016

AOS POETAS


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.



Miguel Torga


Nota: Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta (Sabrosa) a 12 de Agosto 1907 e falecido a 17 de Janeiro 1995 (87 anos). Foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do sec. XX, tendo recebido o Prémio Camões em 1989. Oriundo de família humilde, aos 10 anos foi servir como criado para uma casa apalaçada do Porto e um ano depois frequentou o seminário em Lamego. Com 13 anos, em 1920 foi para o Brasil trabalhar na fazenda de café do tio, em Minas Gerais. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais em Leopoldina. Em 1925 (18 anos), convicto de que ele viria a ser doutor, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos em Coimbra como recompensa dos cinco anos de serviço. Em 1928 (21 anos), entra para a Faculdade de Medicina e publica o seu primeiro livro de poemas. Um ano depois, deu início à colaboração na Presença, revista fundada por José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, grande impulsionadora do movimento modernista em Portugal. Em 1930 (23 anos), rompe com a revista, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente. A sua obra traduz a sua rebeldia contra as injustiças e o inconformismo diante dos abusos de poder. Reflecte sua origem aldeã, a experiência médica, em contacto com a gente pobre, e ainda os cinco anos que passou no Brasil. Chegou a ser preso em 1940 (33 anos) por críticas ao franquismo. Crítico da praxe e tradições académicas, chama «farda» à capa e batina. Em Leiria exerce a sua profissão de médico, entre 1939 e 1942. Casou-se com Andr´é Crabbé em 1940, uma estudante belga aluna de Estudos Portugueses em Bruxelas (pupila de Vitorino Nemésio), que viera a Portugal fazer um curso de Verão. A sua filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, casou-se e divorciou-se mais tarde de Vasco Graça Moura. Sofrendo de cancro, publicou o seu último trabalho, em 1993, vindo a falecer em Janeiro de 1995. A sua campa rasa na aldeia de S. Martinho de Anta, tem uma torga (planta de montanha) plantada a seu lado.

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