06 junho 2008

VISITAÇÃO


Que é do anjo das asas rutilantes
Com que lutou Jacob, na madrugada?
Que é desse outro, de falas sussurrantes,
Que surgiu a Maria, a fecundada,

Tão casta e sem pecado como dantes?
Que é da estrela, pela mão de Deus lançada
A guiar os incertos caminhantes
Ao colmo da cabana consagrada?

Onde estão os sinais que Deus envia?
Onde estão, que os procuro noite e dia
Sem nunca ver cumprido o meu desejo?

Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,
Os não encontro porque sou impuro,
Ou sou impuro porque os não vejo.



Reinaldo Ferreira

27 maio 2008

NÃO DESISTI DE HABITAR A ARCA AZUL...


Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.

Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.



António Ramos Rosa

21 maio 2008

EM FORMA DE CORAÇÃO

Sessão Maio Quartas MalDitas
"Em Forma de Coração"

Hoje, dia 21 de Maio, 22 h
Clube Literário do Porto
(Rua Nova da Alfândega, nº22, Porto)

Desta vez, propõe-se uma colectânea de poemas sobre/relacionados com/ à volta da temática do coração. Para completar, momentos musicais com fado (nada mais apropriado) e um convidado (cardiologista) que nos vai falar sobre "Um coração em forma".

Convidado: Prof. Dr. Cassiano Abreu Lima (Hospital S. João)
Fado: Lígia (voz); Pinto de Oliveira (viola); José Veiga (guitarra)
Coordenação: Anthero Monteiro
Poemas ditos por: Anthero Monteiro; Joana Padrão; Júlia Correia; Luís Carvalho; Mário Vale Lima; Marta Tormenta

Entrada livre. Para informações, praticalidades (morada, onde fica, telefone, etc), CLICAR AQUI



14 maio 2008

O VENTO NA ILHA


O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.


Pablo Neruda
Fotografia: April Bell, Bucareste (Roménia)

08 maio 2008

FMI NO PÚCAROS BAR

FMI (de José Mário Branco)
Voz Luís Carvalho; Guitarra e voz Carlos Andrade
Data: Sexta (amanhã), dia 09 de Maio, pelas 23.30 h.
Local: Púcaros Bar (Rua de Miragaia, 55, Porto - frente à Alfândega, debaixo das arcadas)
Integrada no mês cultural do Púcaros Bar, a convite do amigo Carlos Pinto e na companhia de outro amigo (Carlos Andrade), vou ter a honra de fazer uma encenação do famoso texto de José Mário Branco.
Entrada gratuita, apenas o que se consumir. Convido-vos desde já a aparecerem por lá!

  • Para saber onde fica o Púcaros, outras actividades este mês, contactos, telefones e outras informações, clicar Aqui
  • Para ouvir o FMI dito pelo próprio José Mário Branco, clicar Aqui

05 maio 2008

OLHARES


Olhares que passam,
Que giram,
Que se encontram e desencontram...
Por vezes indiferentes,
Outras vezes exploradores,
Ou então meros ausentes...
Estes aqui misteriosos!
Estes outros sedutores,
Aqueles ali famintos,
Olhares curiosos
Indagadores...
Olhares. Olhos que se cruzam,
Num vaivém constante:
Estes vazios; aqueles de mil cores,
Olhares inquietos
De um desejo errante,
Olhares ávidos,
Plenos de luxúria,
Como os de um amante!
Um olhar - um beijo.
Outro olhar - sorriso.
E um que passa e se apressa
A formular juízo...
Olhos expressivos,
Os olhos de quem caça...
Lenta paciência
Neste aqui, vazio,
Que fixa o distante
Em triste dormência...
Ah, um penetrante,
Que prescruta a alma,
Buscando segredos
Que quer conhecer!
Este outro com medos
E perpétua calma,
A desfalecer...
E ei-los, gulosos,
Saboreiam tudo,
Buscam alimento,
Água que beber.
E este só conforto,
Tão reconfortante
Que fornece alento
A quem sonha, distante,
Negros cemitérios...
Oh, e este aqui,
Este aqui que passa
A esconder, velado,
Profundos mistérios...!

Luis Beirão

Nota: Poema bem antigo já (de 1996 ou anterior) e que recuperei agora pois vinha a propósito - na sequência dos "olhares". Isto, apesar de já bem distante daquele que é actualmente o meu "tom geral de escrita" (chamemos-lhe assim). Foi publicado no livro que se chamava precisamente "Um outro olhar" (2003) da Corpos Editora, deliberadamente não no seu interior, mas sim num separador de páginas oferecido na compra do livro. Aliás (e isto talvez não tenha sido perceptível à altura), todo o livro estava organizado em secções de diferentes "olhares" .

30 abril 2008

CONCERTO EM SINTONIA MAIOR

Concerto em Sintonia Maior (clicar para ver página)
Entrada gratuita!
Local: Sala Mário Neves, da Academia de Música de Espinho (Rua 34, Espinho)
Hora e dia: 21.30 h, dia 03 de Maio (próximo Sábado)
(entrada grátis mas apenas mediante levantamento ou reserva de bilhetes a partir do dia 02, Sexta-Feira, pois os lugares são limitados)
Espectáculo poético-musical integrado no festival TUCÁTULÁ, da responsabilidade da Câmara Municipal de Espinho.

A Onda Poética (tertúlia poética mensal que tem lugar no Bar Dominó do Casino de Espinho) fez recentemente 10 anos de existência. Dada a colaboração musical que lhe foi prestada durante largo tempo pela Academia de Música de Espinho, este espectáculo é uma forma de retribuição, com poemas escolhidos em torno da temática da música, que serão ditos acompanhados por alunos e professores da Academia, que interpretarão variados temas em diversos instrumentos.

Os bilhetes podem ser levantados na Academia ou na Junta de Freguesia de Espinho. Como alternativa, todos os interessados podem contactar-me por esta via (deixando comentário) ou por e-mail (ver o meu perfil).

Participações musicais: Inês Breda; Profª Graça Bastardo; Joana Oliveira; Cíntia França; Hugo Teixeira; Profª Fiammetta Facchini; Susana Oliveira; Filipa Curral; Gil Clément; Ricardo Soares; Ana Sofia Moreira; Profª Sandra Almeida; Tiago Rodrigues; José Tiago Baptista; Prof. Jorge Ferreira; Prof. Fernando Seabra; Profª Sofia Guedes.
Participações poéticas: Anthero Monteiro; Carlos Jorge; Céu Reis; Diana Devezas; Gilberto Pereira; Luís Carvalho.

18 abril 2008

OLHARES CANSADOS

I
Corpos:
Suados, cansados, mirrados,
Que pela seara* vêm caminhando.
Olhares:
Mortos, vagos, parados,
Sem forças para olhar.
Cérebros que pensam sem pensar,
Pernas que andam sem andar,
Obedecendo a uma rotina
Que a mente já não pode controlar.
A vida passou ao lado,
Mas nem a morte quis ficar!
Ficou apenas um sono,
Uma letargia,
Que transforma os homens
Em mortos vivos,
Que nem ousam sequer pensar.
Não ousam...
Não ousam, ou já esqueceram,
Pois há já muito tempo que não pensam.
Trabalham, apenas....

II
Olhares cansados que se cruzam,
Sem se dar conta de que o fazem,
Pois que se esquecem de olhar.
Olhares mortos, vagos, parados,
Guardam ainda na retina
A seara* de tomate que todo o dia contemplaram...
O dia alongou-se, parecia não ter fim...
E quando o corpo se vergava, por fim,
O pôr-do-sol chegou...
E com ele, um vermelho quente, sem vida, desmaiado
(como os olhos voltando da seara*),
Inundou tudo, como se a seara* fosse de fogo.
E depois a noite desceu...
Agora, a caminho da aldeia,
As mentes fatigadas, as pernas cansadas,
Os olhares parados, as mãos calejadas,
Querem apenas o repouso merecido.
Comem não para viver,
Mas para cumprir o mesmo ritual...
Espera-os uma noite agitada,
Trabalhando como sempre na seara*,
Pois a mente, cansada,
Nada mais consegue sonhar!
E levantam-se antes do nascer do sol,
Para mais um dia de trabalho.
A noite não lhes deu repouso:
A mente não descansou, só o corpo.
E lá vão...
Olhares cansados,
Mortos, vagos, parados,
A caminho, como voltaram,
Da seara*...
Luis Beirão
Fotografia: Dan Shirley (R. Unido)
.
*O termo seara aplica-se, é sabido, a um campo de cereais, mas neste poema surge associado a um campo de tomate, pois refere-se à forma como era designado pelos locais. Houve tempos em que parte significativa da população das aldeias montanhosas e pobres das Beiras migrava, sazonalmente, para o Alentejo e Ribatejo para trabalhar na época das colheitas (sobretudo cereais), onde eram usados como mão-de-obra intensiva, dormindo em barracões ou ao relento. Eram pagos à jorna e as condições de trabalho eram duríssimas, apenas para regressarem no Inverno com algum dinheiro às suas aldeias natais. É vulgar ouvir-se aos mais idosos das pequenas aldeias da Beira Baixa contarem histórias da época da sua vida em que "foram para a ceifa". Este fenómeno, embora residual, ainda persiste, hoje em dia mais associado à agricultura intensiva e de regadio do Ribatejo onde, com a reconversão agrícola, muitas extensões de terra antes usadas para cultivo de cereais (e por isso anteriormente designadas de searas), são agora ocupadas por culturas intensivas de produtos para a indústria alimentar (como é o caso do tomate) que ainda exigem, apesar da maquinaria, muita mão-de-obra num curto espaço de tempo, sob pena das colheitas se perderem. Este poema foi escrito há 12/13 anos atrás em Valada, aldeia perto do Cartaxo. Não resisto a recomendar, para quem quiser saber um pouco mais sobre este fenómeno, a leitura do romance "Gaibéus" (1939) de Alves Redol.

14 abril 2008

POESIA - PRÓXIMOS EVENTOS

Hoje, 21.30 h, Bar Dominó do Casino de Espinho (Espinho)
Sessão de Abril da Onda Poética

"Aquele dia de luz"
Novos poemas de Abril; Música; Espontâneos.
Coordenação: Anthero Monteiro; Leituras: Onda Poética, abertas ao público; Música: Carlos Andrade (voz e guitarra acústica)

Quarta (dia 16), 22 h, Clube Literário do Porto
Sessão de Abril das Quartas MalDitas

"Por um mundo melhor"
Convidado especial: Papiniano Carlos (poeta); Outros convidados: Cecília Moreira; Carlos Dias; Música: Carlos Andrade (voz e guitarra acústica; Coordenação: Anthero Monteiro; Leituras: António Pinheiro, Diana Devezas, Joana Padrão, Luís Carvalho, Mário Vale Lima, Marta Tormenta e Rafael Tormenta.

Para mais informações (localização, contactos, etc) clicar aqui



07 abril 2008

SEPARAÇÃO


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juízo final do desamor.

Vizinhos assustam-se de manhã*
ante os destroços junto à porta:
-pareciam amar-se tanto!*

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de pôr a mesa*. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com as suas roupas* amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afectos nado-mortos.*

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objectos*, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta fora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito, o coração pesa
mais que uma mala de chumbo...

.
.
Affonso Romano de Sant'Anna
.
Alguns dados sobre o poeta: - Nasceu em 1937 em Belo Horizonte e foi criado em Juiz de Fora. Lança o seu primeiro livro em 1962. Fez parte de vários movimentos da moderna poesia brasileira e participou em movimentos políticos e sociais que marcaram o país. Desde 1965 até hoje, leccionou várias vezes no Brasil e estrangeiro (E. Unidos, Alemanha, França). Promoveu nos anos 70 a visita de conferencistas internacionais ao Rio, entre os quais Michel Foucault, cuja visita teve grande impacto num país em pleno regime ditatorial. Em 1984, assume no "Jornal do Brasil" a coluna que era de Carlos Drummond de Andrade. O jornal publica os seus poemas na página de política, e não no suplemento literário. Segundo o mesmo, o poeta deve falar sobre assuntos que interessem às pessoas em geral, e reencontrar o seu lugar na sociedade.Foi nos anos 90 Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (a oitava maior biblioteca do mundo) e criou o Sistema Nacional de Bibliotecas e o PROLER (Programa de Promoção da Leitura).
Nota final: palavras a asterisco adaptadas para português europeu: vizinhos se assustam de manhã; pareciam se amar tanto; botar a mesa; com suas roupas amassadas; afectos natimortos; objetos.

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