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12 julho 2018

NO PAÍS DOS SACANAS


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
 

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é e pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.




 Jorge de Sena


09 fevereiro 2016

À ESPERA DOS BÁRBAROS




 O que esperamos nós em multidão no Forum?

       Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?


        É que os Bárbaros chegam hoje.
        Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
        Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.


Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?


        Porque os Bárbaros chegam hoje.
        E o Imperador está à espera do seu Chefe
        para recebê-lo. E até já preparou
        um discurso de boas-vindas, em que pôs,
        dirigidos a ele, toda a casta de títulos.


E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?


        Porque os Bárbaros chegam hoje,
        e coisas dessas maravilham os Bárbaros.


E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?


        Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
        e aborrecem-se com eloquências e retóricas.


Porquê, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?


        Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
        E umas pessoas que chegaram da fronteira
        dizem que não há lá sinal de Bárbaros.


E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.




Konstantínus Kaváfis
(tradução de Jorge de Sena)

Nota:  Poeta considerado o maior nome da poesia em grego moderno. Como escrevia também em inglês, o seu nome surge por vezes como Constantine P. Cavafy. Nasceu na cosmopolita cidade de Alexandria, no Egipto, em 1863, membro da numerosa colónia helénica que existia e ainda existe nessa cidade, que remonta a antes de Alexandre, o Grande. Estrangeiro na sua própria terra, conhecia muito pouco o árabe. O seu pai morreu em 1870 (7 anos), deixando a família em precária situação financeira. Como ele tinha vivido em inglaterra e tinha dupla nacionalidade, a sua mãe e os seis irmãos mudaram-se para lá dois anos depois. Devido a má administração dos bens da família por parte de um deles, a família foi forçada a regressar a Alexandria em 1877. Os sete anos em Inglaterra foram importantes na formação da sua sensibilidade poética. O seu primeiro verso foi escrito em inglês e o subsequente trabalho poético demonstra familiaridade com a tradição poética inglesa (Shakespeare e Wilde, por exemplo). Em 1822, devido a distúrbios políticos, a família mudou-se temporariamente para Istambul. Na pobreza e desconforto novamente em Alexandria a partir de 1885, escrevia poemas em inglês, francês e grego e teve as primeiras relações homossexuais. Trabalhou como jornalista, para a administração britânica e na Bolsa de Valores, tendo falecido em 1933, de cancro na laringe. Era um céptico que questionava o cristianismo, a noção de pátria e a sexualidade dominante. Publicou 154 poemas (não tendo publicado nenhum livro em vida, salvo 2 pequenos opúsculos). em 1953 saiu o livro póstumo, que reunia os poemas que distribuía em folhas soltas. Deixou ainda muitos inéditos ou em esboço, inacabados.


14 novembro 2015

EPÍLOGO



Quando estes poemas parecerem velhos,
e for risível a esperança deles:
já foi atraiçoado então o mundo novo,
ansiosamente esperado e conseguido
- e são inevitáveis outros poemas novos,
sinal da nova gravidez da Vida
concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,
só perfeito e belo aos olhos de seus pais.

E a Vida, prostituta ingénua,
terá, por momentos, olhos maternais.




Jorge de Sena


06 maio 2011

UM EPÍLOGO

 
Quando estes poemas parecerem velhos,
e for risível a esperança deles:
já foi atraiçoado então o mundo novo,
ansiosamente esperado e conseguido
- e são inevitáveis outros poemas novos,
sinal da nova gravidez da Vida
concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,
só perfeito e belo aos olhos de seus pais.

E a Vida, prostituta ingénua,
terá, por momentos, olhos maternais.
 


Jorge de Sena
(Imagem original: Shlomit Wolf, Jerusalém - Israel)

Nota: Nestes tempos, em que mais do que nunca vemos a iminência da mudança a bater-nos à porta (para não dizer na face, e quem sabe - o futuro o dirá - com violência), relembro este poema. Lembro também Aldous Huxley e George Orwell... Mas mais do que a lembrança, a ânsia por novos poemas, e novos discursos...

20 março 2008

CONHEÇO O SAL

.
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu Inverno
da carne repousando em suor nocturno.
.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
.
Jorge de Sena
.
Nota: Mais um poema belíssimo cujo conhecimento, tal como o anterior, devo a indicação de alguém. É bom ter pessoas a quem queremos bem, e que podem e sabem mostrar-nos coisas lindas. São essas pequenas coisas que também contribuem para a nossa felicidade.
Fotografia: Ulrika Bengtsson, Umea (Suécia)

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