Caos desordem tumulto
geometrizados pela polícia
vigiando as plaquetas sanguíneas do hábito
assim a vida se consente
para uma técnica de precário existir
não para o mergulho no vulcão
sabe-se aliás que o vulcão
não rumina aquela chama definitiva
da lenda de Empédocles
vulcão anestesiado em realidade virtual
é o que nos pode oferecer
este tempo de camélias nado-murchas
clamámos em tempos recentes
por "mais luz" pensando auferi-la
sem que dela o gerador não fosse
o dom conseguido em assumida melancolia
ousámos alegria sem espaço próprio
e lográmos dela o simulacro fantasmático
vulcão estropiado
destroços de terra gretada de vazio
mas vazio sem a paixão do seu eco desdobrado
o "horror económico" alguém escreve
apenas a mãe-pelicano arrancando ao peito próprio
o alimento derradeiro para os filhos
já não podemos soltar o "uivo"
lobos criados em cativeiro
e postos à deriva na floresta
de turistas incêndios e outras devastações
lobos perdidos sem referências
nem códigos de antiga altivez solitária
no fim de contas esse "uivo"
nunca passou de ténue miar
de gatos familiares
hoje ronronam uns velhos e lustrosos nos sofás
outros conformados estão com o rato como presa trivial
o maior número enganou-se no beco e não voltou....
Levi Condinho
Nota: Talvez dos poucos poetas portugueses na senda da tradição beatnik (beat generation). A sua escrita está cheia de alusões ao jazz e à música clássica. Nasceu em Alcobaça em 1941 e foi para Lisboa em 1972. Foi jornalista, cronista, empregado bancário (hoje na na reforma) e tradutor. Este poema foi-me indicado pelo poeta, por contraponto a um outro seu mais antigo que aprecio e que oportunamente publicarei aqui.