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04 maio 2010

QUARTAS MALDITAS


 
Poema de Levi Condinho* (Ode a Charlie Parker), gravado no passado mês de Abril, na sessão das Quartas MalDitas 
(Clube Literário do Porto)

Agradecimentos a Maria José Veiga.

* Poeta português que nasceu em Alcobaça no ano de 1941. Foi viver para Lisboa em 1972, tendo militado no PCP 2 anos, entre 1970 e 72. Jornalista, cronista, empregado bancário, publicou Para Que Alguns Me Possam Amar, em 1977, ao qual se seguiram Saxofone e Tentáculos, em 1981. Autor incluído na antologia Sião, organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, publicada na frenesi em 1987.

02 setembro 2007

GINSBERG MORREU



Caos desordem tumulto
geometrizados pela polícia
vigiando as plaquetas sanguíneas do hábito
assim a vida se consente
para uma técnica de precário existir
não para o mergulho no vulcão

sabe-se aliás que o vulcão
não rumina aquela chama definitiva
da lenda de Empédocles
vulcão anestesiado em realidade virtual
é o que nos pode oferecer
este tempo de camélias nado-murchas

clamámos em tempos recentes
por "mais luz" pensando auferi-la
sem que dela o gerador não fosse
o dom conseguido em assumida melancolia
ousámos alegria sem espaço próprio
e lográmos dela o simulacro fantasmático

vulcão estropiado
destroços de terra gretada de vazio
mas vazio sem a paixão do seu eco desdobrado
o "horror económico" alguém escreve
apenas a mãe-pelicano arrancando ao peito próprio
o alimento derradeiro para os filhos

já não podemos soltar o "uivo"
lobos criados em cativeiro
e postos à deriva na floresta
de turistas incêndios e outras devastações
lobos perdidos sem referências
nem códigos de antiga altivez solitária

no fim de contas esse "uivo"
nunca passou de ténue miar
de gatos familiares
hoje ronronam uns velhos e lustrosos nos sofás
outros conformados estão com o rato como presa trivial
o maior número enganou-se no beco e não voltou....

Levi Condinho

Nota: Talvez dos poucos poetas portugueses na senda da tradição beatnik (beat generation). A sua escrita está cheia de alusões ao jazz e à música clássica. Nasceu em Alcobaça em 1941 e foi para Lisboa em 1972. Foi jornalista, cronista, empregado bancário (hoje na na reforma) e tradutor. Este poema foi-me indicado pelo poeta, por contraponto a um outro seu mais antigo que aprecio e que oportunamente publicarei aqui.

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