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30 agosto 2009

MENINO QUE VAIS NA RUA


Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.
Aprende a pisar o Mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.
Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.
Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.
Pisa a lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.
Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.
Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou, então, salta p'rá lua
e mija de lá na terra.



José Gomes Ferreira


Fotografia: Harrison Keely (Cleveland, E.U.A.)

26 julho 2007

QUEM ANDA NOS MEUS OLHOS...


Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?

És tu D. Quixote, e vou matar-te...!

Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
O frio de lâmina das tuas lágrimas

E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas - à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo...!


José Gomes Ferreira

12 junho 2007

O GENERAL


O general entrou na cidade
ao som de cornetas e tambores ...
Mas por que não há "vivas" nem flores?
Onde está a multidão
para o aplaudir, em filas na rua?
E este silêncio
Caiu de alguma cidade da Lua?
Só mortos por toda a parte.
Mortos nas árvores e nas telhas,
nas pedras e nas grades,
nos muros e nos canos ...
Mortos a enfeitarem as varandas
de colchas sangrentas
com franjas de mãos ...
Mortos nas goteiras.
Mortos nas nuvens.
Mortos no Sol.
E prédios cobertos de mortos.
E o céu forrado de pele de mortos.
E o universo todo a desabar cadáveres.
Mortos, mortos, mortos, mortos ...
Eh! levantai-vos das sarjetas
e vinde aplaudir o general
que entrou agora mesmo na cidade,
ao som de tambores e de cornetas!
Levantai-vos!
É preciso continuar a fingir vida,
E, para multidão, para dar palmas,
até os mortos servem,
sem o peso das almas.


José Gomes Ferreira

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