26 junho 2018

PAZ AOS MORTOS


Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.

Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.

As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer. 





Adolfo Casais Monteiro


12 junho 2018

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE



Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.




António Ramos Rosa


05 junho 2018

CANÇÃO DO SUICIDA



Não me matarei, meus amigos.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,

Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.




Manuel Bandeira


13 maio 2018

O LIMITE DIÁFANO




Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
      

 


Sebastião Alba


09 maio 2018

POEMAZINHO ETERNO



Os amigos
 eram falsos como Judas.
 Ah, como Judas, não.
 Judas arrependeu-se.
 Os amigos
 eram mesquinhos como Judas.
 Ah, mesquinhos como Judas também não.
 Judas vendeu Cristo
 e enforcou-se.
            


José Craveirinha

17 abril 2018

O DINHEIRO




O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
                            Tlim!
                            Papo.


E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
                            Tlim!
                            Pronta.


Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
                            Tlim!
                            Ora...


Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
                            (Tlim!)
                            Pois não! 



João de Deus

16 agosto 2017

PORTUGAL



Ó Portugal, se fosses só três sílabas, 
linda vista para o mar, 
Minho verde, Algarve de cal, 
jerico rapando o espinhaço da terra, 
surdo e miudinho, 
moinho a braços com um vento 
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo, 
se fosses só o sal, o sol, o sul, 
o ladino pardal, 
o manso boi coloquial, 
a rechinante sardinha, 
a desancada varina, 
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos, 
a muda queixa amendoada 
duns olhos pestanítidos, 
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos, 
o ferrugento cão asmático das praias, 
o grilo engaiolado, a grila no lábio, 
o calendário na parede, o emblema na lapela, 
ó Portugal, se fosses só três sílabas 
de plástico, que era mais barato! 

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos, 
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã, 
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço, 
galo que cante a cores na minha prateleira, 
alvura arrendada para o meu devaneio, 
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço. 

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, 
golpe até ao osso, fome sem entretém, 
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, 
rocim engraxado, 
feira cabisbaixa, 
meu remorso, 
meu remorso de todos nós...



Alexandre O'Neill

25 abril 2017

PARA QUE TU, LIBERDADE


Cresci a sonhar contigo, tu sabes,
com a pressa ansiosa dos amantes,
todo os dias, sem descanso ou desalento,
imaginando a claridade do teu olhar sereno,
o rumor da tua voz marinha,
o embalo de onda do teu sono de menina.
Um dia chegaste e ergueste a tua casa
na mansa vizinhança dos meus sonhos,
paredes meias com o esplendor dos cravos.
Partilhei contigo o alpendre das estrelas
onde os meus filhos brincaram e cresceram,
onde eu brinquei com os búzios e as sombras
e te prometi fidelidade eterna,
como no fogo das paixões maiores.
Ambos envelhecemos desde então,
dorso arqueado pelo peso
do mais amargo desencanto,
sem renunciarmos à felicidade
que um dia prometemos um ao outro.
Fomos nós que envelhecemos 
ou foi a alegria que se exilou do nosso olhar ?
Foi Abril que perdeu o fulgor primordial
ou fomos nós que deixámos de o merecer,
luz fugidia a escapar por entre os dedos ?
Amanhã acordarás numa cama de pétalas,
imitando a límpida música das fontes,
e eu estarei contigo, como quem renasce,
para que tu, Liberdade, não morras nunca
de tristeza ou abandono nos meus sonhos.


José Jorge Letria

17 abril 2017

PROMETEU


Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Para onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido para o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E para te não respeitar,
Como eu!


Johann Wolfgang Van Goethe


Imagem: Prometeu Acorrentado, quadro de Rubens. 
Tradução (original alemão): Paulo Quintela.


Nota: Goethe nasceu em Frankfurt am Main a 28 Agosto 1749 e faleceu em Weimar a 22 Março 1832. É considerado a mais importante figura da literatura alemã e do Romantismo na Europa. Escreveu romances, peças de teatro, poemas e reflexões sobre arte, literatura e ciências. Era o filho mais velho de Johann Caspar Goethe, homem culto e jurista que nunca exerceu, pois vivia dos rendimentos da fortuna, tal como a mãe, Catharina Elisabeth Textor Goethe, de uma família de poder económico e social. Educados pelo pai e por tutores, Goethe e a irmã aprenderam francês, inglês, italiano, latim, grego, ciências, religião e desenho. Goethe teve aulas de violoncelo, piano, dança e equitação. A família tinha uma biblioteca com mais de 2000 volumes. Por decisão do pai, mas com pouco interesse, Goethe foi para a Faculdade de Direito de Leipzig (1765). Dedicou-se mais a desenho, xilogravura e gravura em metal, teatros e noites na boémia até que, doente, voltou para a casa dos pais. Publicou a primeira obra em 1769 (20 anos) e em 1770 volta aos estudos de Direito, agora em Estrasburgo (actual França), onde conheceu Herder, que lhe incutiu gosto por Homero, Shakespeare e Ossian e pela poesia popular (Volkspoesie). Escrevia poemas a Friederike Brion, com a qual mantinha um romance. Um ano depois, licencia-se. De volta a Frankfurt, trabalha sem muito ânimo no escritório de advocacia e escreve aquela que veio a ser publicada como Götz Von Berlichtungen (O Cavaleiro da Mão de Ferro), peça considerada a primeira obra do movimento que criou mais tarde com Schiller, “Tempestade e Ímpeto” (Sturm und Drang). Em 1772 mudou-se para Wetzlar para trabalhar na sede da corte da justiça imperial, onde conheceu Charlotte Buff (noiva do colega Johann Kestner), por quem se apaixonou. O escândalo obrigou-o a deixar Wetzlar, mas em 1774, deu origem ao romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774, 25 anos) que o tornou famoso em toda a Europa, no período mais produtivo da sua escrita. Em 1775, Carlos Augusto, novo governante de Saxe-Weimar-Eisenach convida Goethe a mudar-se para a capital. Acusado pela população de desencaminhar o príncipe, este faz Goethe comprometer-se com o governo, como ministro. Viveu aí até 1786, exercendo diversas funções político-administrativas e vivendo um romance com Charlotte von Stein. Mas restava-lhe pouco tempo para a poesia, passando a ocupar-se com pesquisas de ciências naturais (geologia, botânica, etc). Torna-se membro dos Illuminatti (maçonaria). Desiludido por não ter tempo para a sua escrita, em 1786 partiu para a Itália usando um pseudónimo, para não ser reconhecido, onde se encantou pelas obras de arte clássicas e do Renascimento e regressou apenas 2 anos depois. Casa-se com Christiane Vulpius de 23 anos, de origem simples, sem prestígio social. Mesmo com a pouca aceitação da sociedade casam-se em 1806 (ele tem 57 anos), no ano em que a cidade foi invadida pelas tropas napoleónicas. Ela morre 10 anos depois. Entre 1791 e 1817, Goethe dirigiu o teatro de Weimar. Em 1794 inicia a sua amizade com Schiller, que o convence a retomar a escrita da sua obra prima, o bem conhecido drama trágico “Fausto” (1790), cuja segunda parte só foi concluída em 1832, ano da sua morte, pelo que lhe tomou a vida inteira. Em 1805, graças a Hegel, Goethe é nomeado professor na Universidade de Berlim, e em 1808 é mesmo condecorado por Napoleão, apesar das suas reservas acerca da Revolução. Começa a ter grandes períodos de doença e aos 82 anos acaba por falecer. Está sepultado no Cemitério Histórico de Weimar ao lado do amigo Schiller.


14 janeiro 2017

TERRA 21



Foi hoje um Domingo bonito, Cacilda!
A sanfona correu o lugar de lés a lés.
- Quem deu pelas histórias dos velhos?
Ninguém.
- Quem ouviu a fome do gado, preso no curral? 
Ninguém.
-Quem espantou as galinhas, debicando nos cachos? 
Ninguém.
Na venda, houve surra, abriram cabeças.
E farnéis na charneca
e dança no sobrado da tua avó.
O brasileiro trouxe aquela caixa que tem música
e modas di lá.
Tudo foi bonito, Cacilda!
Vem banhar-te na alegria
das penas adormecidas.
Deixa o amanhã. 




Fernando Namora



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