31 outubro 2016

AOS POETAS


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.



Miguel Torga


Nota: Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta (Sabrosa) a 12 de Agosto 1907 e falecido a 17 de Janeiro 1995 (87 anos). Foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do sec. XX, tendo recebido o Prémio Camões em 1989. Oriundo de família humilde, aos 10 anos foi servir como criado para uma casa apalaçada do Porto e um ano depois frequentou o seminário em Lamego. Com 13 anos, em 1920 foi para o Brasil trabalhar na fazenda de café do tio, em Minas Gerais. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais em Leopoldina. Em 1925 (18 anos), convicto de que ele viria a ser doutor, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos em Coimbra como recompensa dos cinco anos de serviço. Em 1928 (21 anos), entra para a Faculdade de Medicina e publica o seu primeiro livro de poemas. Um ano depois, deu início à colaboração na Presença, revista fundada por José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, grande impulsionadora do movimento modernista em Portugal. Em 1930 (23 anos), rompe com a revista, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente. A sua obra traduz a sua rebeldia contra as injustiças e o inconformismo diante dos abusos de poder. Reflecte sua origem aldeã, a experiência médica, em contacto com a gente pobre, e ainda os cinco anos que passou no Brasil. Chegou a ser preso em 1940 (33 anos) por críticas ao franquismo. Crítico da praxe e tradições académicas, chama «farda» à capa e batina. Em Leiria exerce a sua profissão de médico, entre 1939 e 1942. Casou-se com Andr´é Crabbé em 1940, uma estudante belga aluna de Estudos Portugueses em Bruxelas (pupila de Vitorino Nemésio), que viera a Portugal fazer um curso de Verão. A sua filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, casou-se e divorciou-se mais tarde de Vasco Graça Moura. Sofrendo de cancro, publicou o seu último trabalho, em 1993, vindo a falecer em Janeiro de 1995. A sua campa rasa na aldeia de S. Martinho de Anta, tem uma torga (planta de montanha) plantada a seu lado.

29 outubro 2016

INFÂNCIA



Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.


Carlos de Oliveira


Nota: Nascido em Belém do Pará (Brasil), a 10 de Agosto 1921 e falecido em Lisboa a 1 de Julho 1981, com 59 anos, filho de imigrantes portugueses, veio aos dois anos para Portugal. A família fixou-se em Cantanhede, na vila de Febres, onde o pai era médico. Em 1933 (12 anos) muda-se para Coimbra, onde continua os estudos. Em 1941 (20 anos) ingressa na Faculdade de Letras, onde estabelece amizade com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1947 licencia-se em Ciências Histórico-Filosóficas, instalando-se em Lisboa, no ano seguinte. O seu primeiro livro de poemas é de 1942, intitulado "Turismo", com ilustrações de Fernando Namora, na colecção poética de 10 volumes do "Novo Cancioneiro", iniciativa colectiva que, em Coimbra, assinalava o advento do movimento neo-realista. As consequências políticas do trabalho de reconstrução cultural que o movimento exprimia, tornaram-se inaceitáveis pelo regime. Num documento não assinado mas possivelmente da autoria de Namora, afirma-se: «O grupo presencista (…) já não podia corresponder de modo nenhum às inquietações do presente. Os problemas sociais, do homem integrado na colectividade, o problema do homem em competição com a sociedade capitalista, atingiam uma agudeza progressiva (…) O homem da rua, o homem sem aqueles abismos psicológicos que saturavam a literatura da época, já não aceitava o fatalismo das desventuras e injustiças sociais. Começava a tomar consciência dos seus direitos e da sua força para os fazer cumprir. A literatura não podia desconhecê-lo por mais tempo. E foi assim que surgiu um novo realismo». Em 1949 (28 anos) casa-se com Ângela, jovem madeirense que conhecera na Faculdade.. Em 1953 (32 anos) publica “Uma Abelha na Chuva”, o seu quarto romance, unanimemente reconhecido uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do sec.XX, e integrado no programa de português no secundário. Periodicamente volta a Coimbra e à zona da Gândara, fonte de inspiração para a sua escrita. Colaborou também com a Seara Nova, um dos grupos mais activos no combate ideológico contra o salazarismo, com papel central na reflexão e crítica até ao 25 de Abril, mas manteve sempre grande independência e originalidade em relação ao grupo neo-realista. O seu último romance, "Finisterra", sai em 1978 (57 anos), tendo como fundo a paisagem gandaresa. Morre na sua casa, em Lisboa, 3 anos depois.

22 setembro 2016

A VERDADE


Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa tomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. 

O mestre zangou-se comigo: Não minta! Diga a verdade! 

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de lucto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! Diga a verdade!! 

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos annos sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lh’o disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! Antes de chegar á Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha a pele de cêra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...


Almada Negreiros


Nota: Nascido a 7 Abril 1893 em Trindade (S. Tomé e Príncipe) e falecido em Lisboa a 15 Junho 1970, José Sobral de Almada Negreiros trabalhou em vários campos artísticos. Essencialmente autodidacta, acabou por ter papel importante no modernismo em Portugal. Esteve, com Pessoa e Sá Carneiro, ligado ao grupo da revista Orpheu. Era filho de um tenente de cavalaria de Aljustrel, nomeado administrador do concelho de S. Tomé, e de uma mestiça oriunda de família abastada. Com 7 anos, o pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris, e assim ele e o irmão vêm estudar para o Colégio Jesuíta de Campolide em Lisboa. Três anos após a implantação da República, já com 20 anos, expõe os seus primeiros desenhos e conhece Fernando Pessoa. Participa na II Exposição dos Humoristas Portugueses, começa a ilustrar jornais e torna-se director artístico do jornal monárquico Papagaio Real. Em 1915 publica o famoso Manifesto Anti-Dantas e colabora no Orpheu. Um ano depois, com 23 anos, publica o manifesto de apoio à I Exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, tornando-se num dos primeiros defensores da sua obra. O seu convívio com Santa-Rita Pintor é determinante para impulsionar o futurismo em Portugal. Tanto Amadeo como Santa-Rita viriam a falecer em 1918, e Almada parte para Paris, onde tem empregos de sobrevivência. Regressa com 27 anos, em 1920, e continua a expor e a escrever, colaborar com jornais, além de fazer obras para a Brasileira e se ter dedicado ao famoso estudo dos Painéis de S. Vicente. Em 1927 parte para Madrid, e só regressa em 1932, já com 39 anos. Inicialmente enérgico, polémico e truculento, começa a assumir uma nova atitude. De convicções monárquicas, aproxima-se do nascente Estado Novo, mas mantendo sempre a sua independência. Em 1934 casa-se com Sarah Afonso, e nasce José, o seu primeiro filho, no ano seguinte. Realiza os primeiros estudos para os vitrais da Igreja da Senhora de Fátima (Lisboa) e inicia colaboração com o arquiteto Pardal Monteiro, que viria a resultar no edifício do Diário de Notícias. Dedica-se a várias actividades: pinturas, desenhos, ilustrações, poesias, ensaios, romances, conferências, palestras, frescos, vitrais, etc. Em 1941, com 47 anos, o órgão de propaganda do regime (SPN - Secretariado de Propaganda Nacional), organiza a exposição Almada – Trinta Anos de Desenho, e aumenta a percepção pública da sua obra. Na década que se segue ganha prémios e projecta cenários para óperas e murais e vitrais para as Gares Marítimas de Alcãntara e da Rocha do Conde de Óbidos, bem como painéis para edifícios da Cidade Universitária de Lisboa. Consagrado, em 1969 realiza o painel Começar para o átrio da Fundação Calouste Gulbenkian. Faleceu com 77 anos, no mesmo quarto de hospital onde falecera Fernando Pessoa.

19 setembro 2016

O ALBATROZ

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


Charles Baudelaire

 
Nota: Nascido em Paris a 9 Abril 1821 e falecido na mesma cidade com 46 anos (31 Agosto 1867), Baudelaire foi um dos precursores do simbolismo e, a par de Walt Whitman é hoje reconhecido como um dos iniciadores da poesia moderna. Fez os estudos liceais na mesma cidade e com 19 anos, para corrigir a sua vida desregrada, o padrasto mandou-o para a Índia, mas acabou por ficar pela ilha da Reunião. Regressado a Paris, continuou a levar uma vida de álcool e droga com a sua companheira a actriz e dançarina haitiana Jeanne Duval. Pela intervenção da mãe num tribunal, a herança do seu pai passa a ser-lhe controlada por um notário. Em 1857, com 36 anos, lança "As Flores do Mal". Acusado de ultraje à moral pública, os exemplares são apreendidos. Corrigindo os 6 poemas que causavam polémica, tenta ingressar na Academia Francesa. Numa visita à Bélgica, tinha conhecido Félicien Rops, ilustrador do seu livro. Na visita a uma igreja em Namur, Baudelaire perde a consciência e sofre alterações cerebrais (afasia, perturbação na compreensão e formulação da linguagem). Chega a ter uma das metades do corpo paralisada. Morreu de sífilis, muito antes de ser famoso. Deixo aqui a tradução do poema acima da autoria de Delfim Guimarães:

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz. 


Mas quando o albatroz se vê preso, estendido

Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!

Que pena que ele faz, humilde e constrangido,

As asas imperiais caídas para o lado! 

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!

Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...

Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,

Mutila um outro a pata ao voador inerme. 

O Poeta é semelhante a essa águia marinha

Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;

Exilado na terra, entre a plebe escarninha,

Não o deixam andar as asas colossais! 

16 setembro 2016

POEMA DE AMOR


Tambien, como la tierra
yo pertenezco a todos.
no hay una sola gota
de odio en mi pecho. Abiertas van mis manos

esparciendo las uvas en el viento

(Pablo Neruda)


quando eu voltar a ver a luz do sol que me negam 
amor
iremos
de paz vestidos
entretecer um sorriso de flores e frutos 

abraçados
por caminhos-serpentes ágeis
trepando dos montes às estrelas
e aos sonhos cintilantes
iremos


cantando também, cantando
todas as canções que sabemos e não sabemos.

quando eu voltar a ver a luz do sol que me negam 
amor
iremos
pois iremos breves chorar
nas sepulturas sem fim 

dos homens sem fim que partiram assim
sem óbito nem combaditocua


sem esperança da luz do sol que nos negam

iremos, amor
dizer-lhes
voltei 

e voltamos
porque nos amamos
e amamos
as sepulturas sem fim dos homens sem fim.


quando eu voltar a ver a luz do sol que me negam 
lábaros erguidos:
- a liberdade é fruto da colheita - 
amor
iremos
colher maçarocas e cores
aos mortos ofertar ressurreição e flores

aos vivos a pujança da nossa vida 
amor
iremos
desenhar no papel celeste um arco-íris 

para nosso filho brincar:
chuva vem chuva vai

senhora da conceição 
chuva pra lavra do pai
manda sol não

iremos, sim, amor iremos 
quando eu voltar
- as grilhetas desfeitas - 
e cingidos faremos
a vida irrefragável medrar
na dádiva serena das colheitas
no pipilar dos pássaros maravilhados
no caminhar dos homens regressados 

nos hossanas das chuvas na terra renascida 
nos confiantes passos da gente decidida 
amor.

vestirá a terra fímbria de nova cor 
de beijos e sorrisos a vida teceremos 
e entre algodoais sem fim
e batuques de alacre festim


iremos 
amor.


António Jacinto

09 setembro 2016

ACTO DE CONTRIÇÃO


Maldição...
Pareço incapaz de atender
a todos os meus  compromissos,
e sinto-me frustrado
por não poder proceder
ao milagre da minha multiplicação.
Acabei de fazer a habitual justificação,
perante um amigo, ao telefone.
Maldição!
Maldição para tamanha fome,
sendo a minha barriga tão pequena...
Infelizmente, pareço incapaz
de manter a minha tão prezada coerência.
Paciência...
Devo admitir que, entre mim
e o resto do mundo
não há, afinal, diferença de maior a assinalar.
E enfim, onde outros falham,
também eu, por força, acabo por falhar...!


Luis Beirão

Nota: publicado em Abril de 2003, quando ele era outro, no livro "Um Outro Olhar" (Corpos Editora). 

26 agosto 2016

SAUDADES DO FUTURO


Martelam-me ainda a cabeça
todos esses grandes pequenos projectos
que nunca abracei
e já me revolvem a mente
todos esses pequenos grandes projectos
que eventualmente
virei a abraçar
hesito entre a terra
e a imensidão do céu
águia adiada
mas planta inútil mera trepadeira
doí-me o coração
pelos voos que não fiz
e pelas raízes que não consolidei
pelas energias que não drenei
e pelas alturas que nunca alcancei
em todo o caso forço-me a ser
de qualquer modo
o que não sou
fica sempre a saudade
do que sou agora
é dessa matéria que de facto sou feito
uma saudade opressora
permanente
por antecipação
saudade da terra onde agora bebo
e do horizonte onde me perco
e saudade de ambos
e saudade de tudo
ao fim e ao cabo
do que fui
do que sou
do que serei
há que despir-me de mim
para poder ser eu
e é esse talvez o maior dilema
trocar de corpo
a cada mutação
sou
e já tenho saudades do que sou
já me vou despedindo de mim
numa permanente nostalgia
e por isso não quero deitar-me
pois sei que pela manhã
já não existirei
mas acabarei por deitar-me
forçosamente
por isso me despeço
com estas palavras
gravadas assim na memória do tempo
na certeza porém
de que ao amanhecer
olharei estas frases
como as de um estranho
e sobre elas verterei lágrimas
cheio de saudades de mim...



Luís Beirão


13 agosto 2016

UMA VIDA DE CÃO


Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente»
vida de cão

*
Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

*
Até aos útlimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»

*
Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
          oferecer-te uma sílaba
          um conselho
          um cigarro



Alexandre O'Neill

Nota:  Poeta nascido a 19 de Dezembro de 1924, em Lisboa. O pai era funcionário bancário, de ascendência irlandesa. Sobretudo auto-didacta, fez os estudos de liceu e chegou a frequentar o Curso de Pilotagem na Escola Náutica. Saiu de casa aos 20 anos e tornou-se escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Dava mostras de estar a par do movimento Surrealista que se disseminava pela Europa. Alguns dos seus amigos nas tertúlias da Pastelaria A Mexicana tinham estado em Paris, onde conheceram André Breton. Com alguns deles, ligados à escrita e artes plásticas, muitos vindos do curso de Belas Artes na António Arroio (como Cesariny, António Pedro, Mário Domingues e Moniz Pereira, para citar alguns), O'Neill esteve na fundação do Grupo Surrealista de Lisboa, o grupo que introduziu o surrealismo em Portugal. A primeira e única exposição do grupo, em 1949, estve rodeada de polémica. Desde aí, foi alvo de vigilância pelo regime de Salazar. Chegou a estar preso em Caxias. A PIDE negou-lhe o passaporte, para ir ter em Paris com Nora Mitrani (socióloga e escritora surrealista búlgara por quem se apaixonou), facto que o poeta nunca esqueceu e deixou explícito no seu conhecido poema Um Adeus Português. Apesar da sua afirmação como poeta com o livro No Reino da Dinamarca (1958), viveu sobretudo da sua actividade como redactor publicitário (entre os seus famosos slogans conta-se o conhecido Há mar e mar, há ir e voltar!). Casou por 2 vezes e teve 2 filhos, um de cada casamento. Dividiu os últimos dias entre Lisboa e Constância, no Ribatejo, onde hoje se encontra uma biblioteca com o seu nome que conserva parte do seu espólio por doação do próprio. Faleceu em Lisboa a 21 de Agosto de 1986, com 61 anos, devido a um acidente vascular cerebral.

03 agosto 2016

TERRA 7


Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.



Fernando Namora 


Nota:  Poeta nascido a 15 de Abril de 1919 em Condeixa-a-Nova e falecido em Lisboa a 31 de Janeiro de 1989, com 69 anos. Foi, além de escritor, médico, exercendo a actividade em muitas zonas isoladas do país, como a Beira Interior e o Alentejo, numa altura em que a figura do médico rural trilhava os caminhos de aldeias remotas. Este percurso veio a influenciar a sua obra, incluindo o livro-poema "Terra" no qual de insere este poema, que iniciou a colecção poética de 10 volumes do Novo Cancioneiro, que marca o advento do neo-realismo em Portugal . Diplomou-se em 1942 em Coimbra, fazendo parte da Geração de 40 (como os amigos Mário Dionísio, Carlos de Oliveira e Joaquim Namorado). Aldeias como Tinalhas, Monsanto e Pavia marcaram o seu trajecto, até que em 1951 (32 anos) se estabeleceu em Lisboa. A sua obra sofreu também influências de Afonso Duarte e do grupo ligado à Presença. Outro livro de poesia conhecido da sua autoria foi Marketing, mas foi mais conhecido como romancista, autor dos famosos Um Sino na Montanha e Retalhos da Vida de um Médico (adaptado ao cinema e à televisão entre as décadas de 60 e 80). Chegou a ser posposto para o Nobel em 81. A casa onde nasceu em Condeixa é actualmente a Casa Museu Fernando Namora, aberta ao público em 1990. Dá também nome a uma Escola Secundária da vila.

23 maio 2016

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE


Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor...  

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...


dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável


um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...


amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão




Al Berto



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