19 agosto 2015

ARTE POÉTICA


A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.



Vitorino Nemésio

10 agosto 2015

A FLOR E A NÁUSEA




Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?


Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.


Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.


Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.


Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.


Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.


Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.


Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.




Carlos Drummond de Andrade

27 julho 2015

AS PALAVRAS



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?




Eugénio de Andrade

25 julho 2015

AUSÊNCIA


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.




Carlos Drummond de Andrade
Fotografia: Jascha Urbex (Holanda)

30 setembro 2014

AS VALQUÍRIAS (a pensar no Sá)


na minha hora 
     mais amarga e tenebrosa
                    estou sozinho

nos minutos infindáveis
       de cada hora que passa
sequiosamente 
         bebo a minha própria taça
                               de cicuta

quando a noite se adensa e eterniza
  quando as agonias
           lascas afiadas
  laceram a carne da alma
         em sangue de espírito vivo

  agora que a sarça ardente
         se torna rubra e incandescente
                  e lambe sofregamente
    as frágeis paredes
que me protegem do mundo e de mim
    ameaça tornar-se finalmente visível
             a eterna combustão
                         que me consome

ardo tranquilamente
   em silêncio
       na noite

porque nesta hora
  não resta ninguém
capaz de presenciar as minhas causas
                   e razões
    (inclusive a falta delas)
capaz de testemunhar a minha loucura
     (ou será lucidez por fim? até que enfim...!)
      de me amparar ou empurrar para o abismo
            (ambos actos de misericórdia
                  e de compaixão)

quedo-me inânime
          por terra

a pensar no que poderia ter sido
            e não no que pode vir a ser
quase...
      quase...

as minhas asas não possuem força
    o vento deixou de as embalar com o seu sopro
          está tudo tão manso lá fora
quietude geral que se demora
           nessa outra 
                escuridão fora de mim

é agora
   está na hora
           quase...
        quase...

FIM

(quase...)
(ah, as valquírias, as valquírias...
Kára chamou também por ti...?)



Luis Beirão
Imagem: The Ryde of the Valkyrs (1909), quadro de John Charles Dollman
Aconselha-se leitura a ouvir ISTO

28 dezembro 2011

EPÍLOGO

Estas páginas foram escritas a caminhar sobre a água, e só assim se podem ler. Não procurei nada, não retive nada. Limitei-me a acusar o choque — brutal, por vezes — de um grão de pólen ou de uma brisa inesperada.

Não conheço outro ritmo que não seja o das estações. Outra música que não a das gotas de chuva nos limoeiros. Outra fuga que não a de um pássaro assustado com a sua própria sombra.

No fundo, o que me recuso a acreditar é que estejamos condenados. Apesar dos prados envenenados, da lenta agonia dos rios e do mar. Da atmosfera cada vez mais carregada das cidades. Contanto que a poesia seja — continue a ser —

um lugar
onde ainda se pode
respirar


Jorge de Sousa Braga

20 outubro 2011

POESIA DE CHOQUE (26)

 Hoje, Quinta (dia20), 22.00 h
Projecto de A. Pedro Ribeiro e Luís Carvalho
Convidados: Vítor Carvalhais e Teixeira Moita (piano)

Apareçam! Mais informações ao clicar AQUI
Site do evento no facebook AQUI

15 outubro 2011

POESIA EM PENAFIEL

 Hoje à noite dia 15, 21.30 h
Penafiel 
21.30H Galeria Gabinete (Rua Alfredo Pereira, nº3)
23.00H EP Estúdio Café (Rua do Paço, nº54)
 

Organização: Galeria Gabinete/ EP Estúdio Café/ Ass. Dor de Burro
Poesia dita por: Ana Almeida Santos, Luís Carvalho, Reinaldo Santos (entre outros)
Música: Rui Paulino David  

Paralelo à homenagem de que Mia Couto será alvo por parte do ESCRITARIA.
Evento parcialmente transmitido online, se clicarem AQUI
Página do evento no facebook, clicar AQUI
Direcções de condução, clicar AQUI


Apareçam se estiverem por lá, ou se quiserem visitar Penafiel!

03 outubro 2011

QUARTAS - POESIA E PINTURA


Quarta dia 05, 22 horas
(Clube Literário do Porto)  
Sessão mensal das Quartas Mal Ditas

Coordenação: Anthero Monteiro
Convidado: Fernando Gaspar
Leituras por: Amílcar Mendes, Ana Almeida Santos, Anthero Monteiro, António Pinheiro, Cláudia Pinho, Luís Filipe Carvalho e Rafael Tormenta
Música: Rui Paulino David
Colaboração: Fátima Lopes

Apareçam!

26 setembro 2011

ENTRE BUENOS AIRES E MENDOZA

 
Onde estão os teus poetas, América?
 
Onde estão eles que não vêem o alarido 
construtor dos teus portos, 
onde estão eles que não vêem essas bocas 
marítimas que te alimentam de 
homens
que atulham de combustível as fornalhas 
dos teus caldeamentos
onde estão eles que não vêem todas essas 
proas entusiasmadas, 
e esses guindastes e essas gruas que se 
cruzam
e essas bandeiras que trazem a maresia 
dos fiordes e dos golfos
e essas quilhas e esses cascos veteranos 
que romperam ciclones e pampeiros
e esses mastros que se desarticulam, 
e essas cabeças nórdicas e mediterrânicas
que os teus mormaços vão fundir em 
bronze,
e esses olhos boreais encharcados de luz
e de verdura,
e esses cabelos muito finos que procriarão 
cabelos muito crespos, 
e todos esses pés que fecundarão os teus 
desertos!
 
Teus poetas não são dessa raça de servos
que dançam no compasso de gregos 
e latinos,
teus poetas devem ter as mãos sujas de
terra, de seiva e limo,
as mãos da criação!
E inocência para adivinhar os teus
prodígios.
e agilidade para correr por todo o teu
corpo de ferro, de carvão, de cobre, de 
ouro, de trigais, milharais e cafezais! 
 
Teu poeta será ágil e inocente, América!
a alegria será a sua sabedoria,
a liberdade será a sua sabedoria,
e sua poesia será o vagido da tua própria
substância, América, da tua própria 
substância lírica e numerosa. 
 
Do teu tumulto ele arrancará uma energia
submissa,
e no seu molde múltiplo todas as formas
caberão,
e tudo será poesia na força da sua
inocência.
 
América, teus poetas não são dessa raça
de servos que dançam no compasso de 
gregos e latinos!



Ronald de Carvalho
(foto: paisagem perto de Cordoba, Argentina; autor: Gabriel Robledo, Buenos Aires, Argentina) 

Nota: poeta brasileiro falecido em 1935. Foi, em conjunto com Luís de Montalvor, director do primeiro número da revista literária Orpheu, publicada em Lisboa em Março de 1915. Esta revista, polémica à época (publicaram-se apenas dois números), introduziu em Portugal o movimento modernista, num projecto a que estavam associados futuros nomes importantes das letras e das artes (Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada-Negreiros, Amadeu de Souza Cardozo, etc). Para biografia, clicar AQUI.

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