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30 março 2007

O FIM DOS GUERREIROS

( a D.Quixote, o último dos cavaleiros)

Quem me dera a mim
Os dragões, os monstros e as bruxas,
Os hercúleos, brutamontes,
Inimigos de outros tempos...!
Oponente grande, forte, sólido,
Que desse realmente gosto esmurrar,
Que valesse a pena combater,
Que exigisse coragem
Para o enfrentar,
Face ao qual nos desse gozo revoltar !
Mas sendo os nossos inimigos
Estas pequenas "formigas"
Que nos dilaceram a alma,
Nada podemos fazer...
Se esmurramos....
Nós próprios é que sangramos.
Se combatemos...
Nós próprios é que sofremos.
E sem glória na morte,
Para nos coroar,
Não vale a pena lutar !

Oração:
Oh, cavaleiros de mil batalhas
Travadas e vencidas,
De mil donzelas em perigo socorridas,
De mil dragões acalmados,
De mil monstros esventrados...!
Envoltos em auréola de glória,
Pelas multidões aclamados,
Fizestes a festa da vitória,
De quem sobreviveu à morte
E traçou a sua própria sorte,
E eis que sucumbis agora,
Vítimas de intrigas da corte...!

Luís Beirão

07 março 2007

MÃE


Momento sublime,
Eis um final de dia no princípio do Verão.
Tudo refresca, agora,
No momento da meia-luz.
A erva ainda está verde,
Mas o pó já se levanta pelos caminhos
A anunciar a secura de um Agosto.
Aqui ao lado, corre o cano de uma fonte,
Com uma bica de água,
Canção de embalar que traz ecos
De outras recordações de Verão...
As árvores recortam-se já, como sombras,
Contra o céu sereno,
Onde voam, aqui e além,
Farrapos de nuvens esquecidos.
Ao meu nariz, apresentam-se cheiros suaves,
Frescos e penetrantes:
Da terra dos caminhos,
Das acácias ondulando na brisa,
Da água e da frescura da relva.
Nao tenho sede, mas apetece-me beber desta água,
Como se com isso bebesse também o momento
E a paisagem.
Apetece-me parar o tempo,
Ficar aqui, sempre no meio,
Sempre na meia-luz,
Envolto desta frescura perfumada e inebriante.
Queria estirar-me ao comprido, no chão,
Arrancar esta erva fresca aos punhados e devorá-la,
Rebolar-me nela como um rafeiro
E por fim adormecer, de barriga para o ar..!
Oh, natureza, natureza mágica, cristalina!
Quanto te devo, diz-me?
Quanto te deve a minha alma?
Quantas vezes, de pequeno,
Não brinquei com cachorros e miúdos como eu, na relva,
Descrevendo piruetas e cambalhotas?
Quantas vezes não trepei, e me pendurei, e me baloucei,
Nos galhos de pinheiro ou oliveira?
Quantas vezes colhi a flor da giesta e coloquei num boné,
Para dar aos rebanhos de cabras
Que povoam ainda os meus sonhos de infância?
Quantas vezes fui às capelinhas e rosmaninhos,
Por alturas do S. João?
E corri e brinquei,
E cresci e sonhei,
No meio das matas.
Quantas vezes afinal,
Me banhei em águas puras e frescas,
Sentindo na pele e nos cabelos o ondular da brisa,
Percorrendo as copas dos amieiros e dos salgueiros?
Oh, meu deus, e há quanto tempo
Nao ouço cantar o cuco,
Nem o som das cigarras em noites de Verão,
Com a aldeia às soleiras das portas?
Quanto te devo, afinal, quanto és em mim?
Quanto eu sou teu?
Tanto...
E no entanto,
Nunca condignamente te cantei,
Nunca aos teus pés me ajoelhei e chorei, Deusa-Mãe !!
Porque eu devo-me a ti,
Pois que me fizeste a mim
E, qual marca eterna e inapagável,
Em mim permaneces e em mim te revelas...!
Nunca quis cortar o cordão umbilical.
Mesmo de pulmões intoxicados,
E de alma turva e conturbada,
Sinto-te ao chegar.
E calço uns ténis velhos e sujos pelo tempo,
Percorrendo as matas e os vales,
Como se fosse ainda criança e velasses por mim...
As silvas arranham-me na tentativa de me afagarem,
Os tojos abraçam-me com saudade,
Mas cicatrizes e feridas em pernas e braços,
Não chegam para apagar o sorriso da minha cara iluminada,
O sorriso de quem regressa, sempre,
Para ti,
O sorriso de quem nunca partiu de facto,
Uma vez que por todo o lado me acompanhaste.
Obrigado, mãe, obrigado !
Desculpas-me as travessuras, que eu sei...
Não importa o quanto me afaste,
Pois nunca me afastarei o suficiente
Para deixar de ser,

SEMPRE
IRREVOGAVELMENTE

...............TEU !
Luis Beirão

26 fevereiro 2007

FÁBULA DIÁRIA


sordidez diária
diária fábula inconclusa
onde a gente se afunda cada vez mais
e mais
e mais
e mais...
pequenez quotidiana
tudo parado
tudo estagnado
tudo resumido
condensado
impregnado
anestesiado
atolado
afogado
inundado
num lodaçal permanente
de desesperança
de desilusão
e de inevitabilidades
que nos aguardam a cada esquina
e nos perseguem
e nos agarram
e nos prendem
e nos amarram
e não nos deixam esbracejar.
não há como fugir.
há uma longa lista de infracções
e impossibilidades
e não se pode transgredir.
não há prisões
há a grande prisão de todos os dias
um imenso espaço físico onde nos podemos mover
mas sem nenhum espaço mental
senão o que se reduz a esta estreita faixa
por onde diariamente caminhamos.
sinto-me a enlouquecer.
devagarinho.
noutros momentos penso
estou afinal lúcido demais.
resta-me o consolo de uma infância
e dos sonhos que a acompanharam
de uma criança aparentemente frágil
a que por vezes me agarro desesperadamente
onde tento buscar o meu alimento
o meu alento de todos os dias.
não encontro palavras para o que procuro exprimir
nem para mim mesmo
para auto-consumo
e auto-digestão.
ocorre-me a palavra angústia.
agonia.
desfalecimento contínuo.
estagnação.
pântano.
modorra.
masmorra.
cárcere.
apetece-me gritar
andar nu pelas ruas da cidade.
bater em alguém até que a minha mão fique a sangrar.
ou alguém bater-me
até eu me arrastar para um canto
e aí possa desfalecer
sem conseguir pensar em mais nada.
preciso de loucura a temperar a minha existência
sentir de algum modo que sou mesmo livre
que o meu espírito é maior que todas estas pequeníssimas coisas
que toda esta mesquinhez que me rodeia.
ocorre-me que nem sempre foi assim.
ou então as coisas sempre foram deste modo
e eu permanentemente
bêbado de vinho
de alegria
de cerveja
de amor
de whisky
de calor humano
inebriado pelo sonho ou pelo mosto
nunca olhei a direito para elas...
a minha linguagem atropela-se.
atropela-me.
não consigo fluir como um rio.
disperso-me em todos os sentidos
sem me concentrar em nenhum.
não é uma dispersão criativa
mas uma dispersão sem tino nem nexo
apenas e tão-só uma vontade incontrolável
de me espalhar pelos quatro cantos do cosmos
desfazer-me em milhentas partículas.

até não conseguir reconhecer-me.

até deixar de me ouvir a pensar.

até não pensar

(nunca mais)

em mais nada...


Luis Beirão

22 janeiro 2007

PASSAGEM...


Passa por mim lentamente
Mas não fiques,
Nem te detenhas...
Passa por mim, gentilmente,
Revolve as minhas entranhas...!

Passa por mim,
Como gente,
E faz minhas as tuas penas.
Passa por mim, mansamente...

Mas não fiques,
Passa apenas...

Passa por mim
Como sempre, frágil,
Passa por mim
Levemente, ágil,
E transforma-me em algo mais...

Mas não fiques,
Não te demores
Nestes dias sempre iguais...!

Aqui tudo permanece igual
Excepto essa tua passagem
Que vem acariciar-me a face.
Mansa brisa, leve aragem!
Passa por mim, suave, frágil,
Tu no rio, eu na margem

Mas não fiques, não te demores,
Na tua incessante viagem...

Que eu sou quem fica,
Tu quem corre,
Porque aqui o tempo morre,
Tudo estagna e apodrece.
Passa portanto por mim,
Se a minha alma o merece,
As vezes que desejares.

Mas não fiques, mas não páres!

E sorri,
Quando passares...

Luis Beirão

08 agosto 2006

COMUNHÃO




Deixa-me voltar para onde o ar
É mais puro, e a vida mais leve!
Deixa-me...
Ainda que por um momento efémero e breve,
Deixa-me voltar a sentir o vento
Abanar as copas dos pinheiros
E a ver giestas e papoilas
Florirem nas encostas!
Deixa-me voltar a respirar
O odor a capelinhas e rosmaninhos
Pelo S. João,
Saltitar uma vez mais, por veredas e caminhos,
Como se a infância não tivesse ainda fugido....
Deixa-me...
Deixa-me achar-me no meio das serras,
Eu, que há muito ando já perdido!...
Deixa-me vida triste, cruel,
Deixa-me, que quero reaprender
A cheirar as ervas e o mato,
As flores e a Primavera!
Deixa-me,
Que quero sentir, como outrora, o cheiro da terra,
E beber outra vez, de bruços,
A água fresca das nascentes,
Nos cumes dos montes.
Deixa-me,
Que quero de novo sentir em mim
O despertar de uma quimera,

E a liberdade dos amplos horizontes...!


Luis Beirão

07 agosto 2006

AGRICULTURA


O sono não vem,
Mas também,
Se não vem mais nada...!
A mente, aquilo que tem,
Não o quer dizer a ninguém,
Muito menos ao papel
Que repousa aqui à minha frente.
Soluços e murmúrios,
Que gritos não servem para exprimir os abismos
Que contemplo...
E vou soluçando,
E vou murmurando assim,
Lentamente, no papel.
Agonizando...
Apercebo-me agora claramente
Da artificialidade das palavras.
São precisas mil e uma unidades
E várias conexões
Para exprimir uma leve aproximação
Àquilo que é suposto transmitirem...
Não importa.
Nada mais importa.
A minha mente parece
Um terreno estéril e árido,
De onde foi sugada e drenada
Toda a vida,
Onde todas as palavras e conceitos
Cresceram, abriram em flor,
Deram fruto, e amadureceram.
E depois veio o Outono
E, com ele, a altura da colheita.
E o lavrador, ávido de frutos,
Não deixou nenhum para semente...
Pois bem, se o campo não dá frutos,
Ao menos que cresça nele a erva daninha...!


Luis Beirão

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